|
Ela
sempre soube o que queria. Não, ela nunca soube, só
fazia de conta que sabia. Era dessas pessoas de rompantes
descabidos, se antes concordava veementemente com alguma coisa,
dias depois discordava com argumentos e firmeza, como se aquela
opinião fizesse parte dela a vida inteira.
Era
uma pessoa estranha, parecia um objeto sempre fora do lugar,
inadequada, ora no tamanho ora na largura, na cor, nos movimentos,
não havia um espaço para ela em lugar nenhum.
Nada, nem ninguém, combinava com ela, nem o dia ou
a noite ou mesmo o intervalo entre as horas e seus minutos.
Ela não se encaixava. Tinha
poucos amigos, na verdade, pessoas que respondiam aos seus
cumprimentos, ocasionalmente paravam e a escutavam.
Fora
isso só o espelho. Sabe-se
pouco ainda hoje sobre a importância do espelho. No
modesto apartamento onde morava, havia uma cama king size
e em frente a ela, o espelho. Mais nada. Absolutamente branco,
do teto ao chão, a cama e o espelho.
Nele,
era o reflexo sua referência humana, sua identidade
e os constantes murmúrios. Supõe-se que falava
com ele, como com alguém, uma presença que lhe
faltou em algum momento da vida e ao longo dela sedimentou-se.
Era só, extremamente só, não cabia em
si, nem no mundo.
Quando a acharam, muitos dias depois de morta, havia no espelho
a seguinte mensagem, escrita com o próprio sangue:
O reflexo me matou.
Nada mais. Ela virou alguém, nesse exato instante tornou-se
a moça do reflexo. Até então, uma vida
sobre nada era o que possuía, depois de morta adquiriu
grandeza, amigos que juravam conhecê-la desde sempre,
alguns segredos sórdidos sobre sua vida sexual e a
cor de seus cabelos, uma religião e rituais recitados
baixinho. Tinha ideais e seu maior sonho era ser escudo humano
em uma guerra qualquer, ou acorrentar-se num navio para salvar
as baleias jubarte na época de sua — das baleias—
reprodução.
No dia em que morreu, com uma história traçada,
a moça do reflexo viveu muitos anos de vida e terminou
velhinha no imaginário coletivo, que jamais soube da
sua existência.
|