No
dia 22 de maio de 1885, faleceu um dos poetas românticos mais importantes
da França, Vitor Hugo. Morreu rico, seu corpo foi levado do Arco
do Triunfo ao Panthéon, acompanhado por um milhão de pessoas pelas
ruas de Paris. Virou mito, lenda, referência. Foi feliz? Talvez,
mas o preço foi alto. Victor Hugo teve sucesso em vida, o que é
raro e não morreu na miséria como é tão comum, mas a vida não foi
tão generosa com ele. A vida familiar do escritor foi repleta de
tragédias. O irmão mais velho, Eugène, era apaixonado por Adèle,
a amiga de infância com quem Hugo se casou. O irmão acabou no hospício.
Adèle, nos braços de Sainte-Beuve, o principal crítico francês da
época e amigo do escritor. Léopoldine, sua filha, morreu afogada
em 1843. A outra filha, Adèle, se apaixonou por um tenente e morreu
esquizofrênica num asilo, depois de perseguí-lo alucinadamente.
Alguém se lembra do filme "A história de Adele H." com
a belíssima Isabelle Adjani? Pois é, Adèle H. era filha de Victor
Hugo. A morte da esposa e de dois filhos provocaram nele um abatimento
do qual nunca se recuperou completamente. Em 1878, seu estado piorou,
devido à uma congestão cerebral que o levou a viver em reclusão
na avenida que, no seu aniversário de 80 anos, em 1882, passaria
a ter o seu nome. O golpe final que acabou de abater Victor Hugo
foi a morte de sua amante, Juliette, em 1883. Dois anos depois,
ele faleceu. A biografia é breve para uma vida extensa, de exílio,
luta, glória, de intensa atividade literária como poeta e prosador
ao longo de 60 anos, mas para quem ficou para a posteridade o que
há para acrescentar? Victor Hugo fala por si.
Para não cair nos textos de sempre do escritor: "Desejo",
"Homem e Mulher", prefiro deixar uma carta dele para
Adèle Foucher, do livro "Cartas do Coração". Livro do qual já falei
por aqui. São cartas de algumas personalidades para suas paixões/amores.
Muito interessante porque prova o que Fernando Pessoa poetizou,
"todas as cartas de amor são ridículas". Ridículas e lindas, claro.
Sexta-feira à noite, 15 de março de 1822.
Após os dois deliciosos serões de ontem e anteontem, certamente
não sairei esta noite, vou me sentar aqui e escrever a você. Além
disso, minha Adèle, minha adorável e adorada Adèle, quanta coisa
tenho a dizer! Oh! Deus, há dois dias que me pergunto a todo momento
se tal felicidade não é um sonho. O que sinto não parece ser da
Terra. Ainda não consigo compreender este céu sem nuvens.
Você ainda não sabe, Adèle, ao que me havia conformado. Ai de mim!
E eu sei? Porque era fraco, imaginei-me calmo; porque me estava
preparando para todas as loucuras do desespero, julguei-me corajoso
e resignado. Ah, deixe-me cair humildemente aos seu pés, você é
tão generosa, tão terna e tão forte! Estive pensando que o limite
máximo da minha devoção só podia ser o sacrifício da minha vida:
mas você, meu generoso amor, estava pronta a me sacrificar o repouso
da sua.
Adèle, a que insanidades, a que delírio não se ia entregando o seu
Vítor nestes intermináveis oito dias! Às vezes estava decidido a
aceitar a oferta do seu amor admirável; achava que, se fosse levado
ao extremo pela carta de meu pai, poderia levantar algum dinheiro
e levá-la - a você, minha noiva, minha companheira, minha esposa
- para longe de todos os que nos querem separar; achei que pudéssemos
atravessar a França, eu como seu marido, e ir a outro país, onde
nos dessem os nossos direitos. De dia viajaríamos na mesma carruagem,
de noite dormiríamos sob o mesmo teto.
Mas não pense, minha nobre Adèle, que eu me aproveitaria de tanta
felicidade. Não é verdade que nunca me atribuiria a infâmia de pensar
em tal coisa? Você seria o objeto mais digno de respeito, a criatura
mais respeitada por seu Victor; poderia até dormir no mesmo quarto
sem temer que ele a alarmasse com um toque ou mesmo com um olhar.
Eu apenas dormiria ou ficaria em vigília sentado numa cadeira ou
estendido no chão ao lado do seu leito, sentinela do seu repouso,
protetor do seu sono. O único direito de esposo a que este seu escravo
aspiraria seria o de proteger, até que um sacerdote lhe concedesse
os outros...
Adèle, oh! Não me odeie, não me despreze por ter sido tão fraco
e abjeto enquanto você era tão forte e sublime! Considere a minha
situação aflitiva, a minha solidão, o que eu esperava de meu pai;
considere que por uma semana julguei perdê-la, e não se espante
da extravagância do meu desatino. Você - uma criança - foi admirável.
E penso que seria lisonjear um anjo compará-la com ele. Você foi
privilegiada ao receber todos os dons da natureza, a firmeza e as
lágrimas. Oh! Adèle, não confunda estas palavras com cego entusiasmo
- entusiasmo por você sempre o tive e crescerá a cada dia. A minha
alma inteira lhe pertence. Se toda a minha existência não fosse
sua, a harmonia do meu ser ter-se-ia perdido e eu teria morrido
- morrido inevitavelmente.
Era nisso que pensava, Adèle, quando me chegou a carta que devia
trazer a esperança ou o desespero. Se me ama, sabe qual foi a minha
alegria. Não descreverei o que deve ter sentido.
Minha Adèle, por que não há outra palavra para isso a não ser alegria?
Será que por não haver força na lingüagem humana para exprimir tamanha
felicidade?
O repentino salto de melancólica resignação para a infinita felicidade
parecia perturbar-me. Mesmo agora ainda estou fora de mim e às vezes
tremo de despertar deste sonho divino.
Oh, agora é minha! Afinal é minha! Breve, dentro de alguns meses
talvez, meu anjo irá repousar em meus braços, despertar em meus
braços, viver aqui comigo. Todos os seus pensamentos em todos os
momentos, todos os seus olhares serão para mim; todos os meus pensamentos,
todos os meus momentos, todos os meus olhares serão para você! Minha
Adèle!...
E agora você me pertencerá! Agora poderei gozar na terra a felicidade
celeste. Vejo-a minha jovem esposa, em seguida uma mãe extremosa,
mas sempre a mesma, sempre a minha Adèle, tão meiga, tão adorada
na castidade da vida conjugal como nos dias virginais do seu primeiro
amor - responda-me querida - diga-me se pode conceber a felicidade
de um amor imortal na união eterna! E esse será o nosso amor por
um dia... Minha Adèle, nenhum obstáculo poderá levar-me a coragem
agora, nem no que escrevo nem em minha tentativa de obter uma pensão,
pois cada passo que dou para triunfar numa e noutra coisa me aproxima
de você. Como qualquer coisa poderia agora me parecer penosa? Não
me atribua tamanha fraqueza, imploro. Que é um pequeno esforço,
quando se conquista tanta felicidade? Não implorei ao céus milhares
de vezes que me deixasse possuí-la à custa de meu sangue? Oh, como
sou feliz! Como vou ser feliz!
Adeus, meu anjo, minha adorada Adèle! Adeus! Beijo seus cabelos
e vou para a cama. Ainda estou longe, mas posso sonhar com você.
Talvez muito em breve esteja a meu lado. Adeus, perdoe o delírio
de seu marido, que a beija e adora nesta vida e na outra.
O teu retrato?