"Amigos, não consultem os relógios quando um dia me for de vossas
vidas... Porque o tempo é uma invenção da morte: não o conhece a
vida - a verdadeira - em que basta um momento de poesia para nos
dar a eternidade inteira." -
Mario Quintana
O doce poetinha nos deixou num dia 05 de maio, nos deixou assim
como seus versos uma nota de flor na boca, um aroma de outono nas
mãos e um sorriso como o dele que mesmo sorrindo parecia conter
uma tristeza suave. Quintana não era ranziza, zangada, nem mesmo
tímido, era apenas calado, introspectivo, daqueles que ao olharmos
ficamos intrigados, procurando desfrutar de um riquíssimo mundo
interior que certamente existia. Tinha um humor único, uma fina
ironia a pontuar seus comentários sobre o corriqueiro da vida. Tenho
a impressão de que conviver com ele devia ser leve como algodão
doce, uma surpresa constante em qualquer coisa de sempre como no
velho poste iluminando a rua ou mesmo pela janela onde abril se
abria diferente todos os dias.
Inscrição
Para Um Portão de Cemitério
Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela,
Quando se morre - uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!
Mario
Quintana
Mario Quintana nasceu em trinta de julho de 1906 em Alegrete
- próxima à fronteira com a Argentina -, cidade banhada pelas margens
do rio Ibirapuitan, cenário de muitas de suas poucas brincadeiras
de criança. Poucas porque, apesar de ter dito inúmeras vezes que
teve uma infância igual a de tantos outros, desde cedo teve uma
inclinação natural à leitura.
Aos 7 anos foi alfabetizado pelos pais e já aos treze dominava
a língua francesa - quando adulto, seus autores preferidos eram
Rimbaud, Appollinaire e Verlaine. No primário, quando foi apresentado
sem rodeios à gramática lusitana, recusou aceitá-la, alegando que
não era aquela a língua que falava. Nisso acreditou até seu amadurecimento
poético, pois sempre escreveu de forma coloquial todos os seus versos.
Na verdade, Quintana sempre escreveu de maneira simples o complexo
da vida. Os poemas dele são como bordados ricos na complexidade
dos pontos, mas formavam desenhos simples, desenhos que todos identificavam
de imediato. Graças a ele e suas traduções, os leitores brasileiros
puderam ter acesso a Proust, Virgínia Woolf, Balzac e tantos outros,
foram mais de cem livros traduzidos. Publicou seu primeiro livro
aos 34 anos, porque achava que quanto mais velho o poeta, "maior
a tendência de ficar melhor, com estilo mais depurado".
Nunca
ninguém
sabe Nunca ninguém sabe se estou louco para rir ou para chorar.
Por isso o meu verso tem esse quase imperceptível tremor...
Jardim Interior
Todos
os jardins deviam ser fechados,
com altos muros de um cinza muito pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.
Mario
Quintana
O
que nos mata, é não ter um poetinha como ele para nos falar de nossos
jardins, dos pássaros, do céu, do vento e sua tristeza por não ser
colorido, das estrelas que não paramos mais para olhar... quando
foi que você antes de entrar apressado no carro ou em casa olhou
estrelas no céu? Pois olhe hoje, uma delas é ele.
Noturno
Ninguém
no cais deserto...
Apagaram-se os grilos.
As estrelas estäo imóveis e tristes como um mapa sideral.
Mario
Quintana