"Quero
todo o teu espaço e todo o teu tempo
quero todas as tuas horas e todos os teus
beijos quero toda a tua noite e todo o teu silêncio."
Mário Quintana
O
Primeiro Beijo
Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se
o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem
junto: ciúme.
- Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz
com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou
uma mulher antes de me beijar?
Ele foi simples:
- Sim, já beijei antes uma mulher.
- Quem era ela? perguntou com dor.
Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.
O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos
no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe
no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem
peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar,
e apenas sentir - era tão bom. A concentração no sentir era difícil
no meio da balbúrdia dos companheiros.
E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais
alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida!
como deixava a garganta seca.
E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez.
Depois de reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez
e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma
sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo
todo.
A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se
quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca
saliva que pacientemente juntava.
E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento
de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era
mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede
era de anos.
Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água,
pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela
procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando,
farejando.
O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da
estrada, entre arbustos estava... o chafariz de onde brotava num
filete a água sonhada.
O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro
a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.
De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao
orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu,
escorrendo pelo peito até a barriga.
Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso
até se saciar. Agora podia abrir os olhos.
Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o
e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher
que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira
nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.
E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher
de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.
Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas
não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador
da vida... Olhou a estátua nua.
Ele a havia beijado.
Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro
dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva.
Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia.
Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre
antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca
lhe tinha acontecido.
Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de
coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar.
A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto.
Perplexo, num equilíbrio frágil.
Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta
nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho
antes jamais sentido: ele...
Ele se tornara homem.
Clarice
Lispector
"Ave Nave
Moinho
E tudo mais serei
Para que seja leve
Meu passo Em vosso caminho"
Hilda Hilst
Ao
longe, ao luar,
No rio uma vela Serena a passar,
Que é que me revela?
Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me estranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho.
Que angústia me enlaça?
Que amor não se explica?
É a vela que passa Na noite que fica.
Fernando
Pessoa 5.8.1921
Esse
é pra você onde quer que você esteja, quer que seja, em qual fonte
ainda desconhecida a beira de um caminho comum, ainda te encontro...
Mesma
Fonte
"Eu quero te contar a minha vida
espalhar na mesa
os vidrilhos, as lãs
com que fiei meus sonhos
e te falarei dos meus infernos e precipícios
de quantas mortes morri
enquanto me olhava no espelho
eu quero te falar
de longas esperas
em plataformas vazias
te falar de um trem
que nunca chegava
de um navio de areia
escorrendo entre os dedos
eu quero te contar
a minha vida
em suas insignificantes nuances
sem esconder os fantasmas
nos bolsos internos da alma
eu quero te contar
a minha vida
no que ela tem de náusea e desejo
amassando as palavras
como se fosse argila
eu quero te falar
dos ventos que embaralhavam a casa
das minhas caixas e cofres
das minhas magoadas estrelas
eu quero te falar
da minha vida
como se escrevesse em tua pele
e me inscrevesse nela
porque em algum recanto sombrio
a minha vida tem folhas
que são da tua
e não me pertence
o meu cotidiano é feito com a mesma
esgarçada renda dos teus
e nesse lugar
a beira do imaginário
nos encontramos
e bebemos na mesma fonte"
R.Murray