Take
I - a infância
Quando criança, ele recebeu do pai um castigo traumatizante. Seu
pai pediu-lhe calmamente que levasse um bilhete para o chefe de
polícia do bairro, não muito longe da casa da família, em Londres.
O jovem Alfred pegou o bilhete e andou até a delegacia, procurou
o "constable" e entregou-lhe o pedaço de papel dobrado. O homem
abriu o papel, leu e olhou para o garoto gordinho na sua frente.
Pegou um molhe de chaves, tomou a criança pelo braço e a levou para
uma das celas da delegacia, trancando o menino como um malfeitor,
para sua angústia e desespero.
Esta é uma cena tipicamente hitchcockiana.
Nos
dias tempos atuais quando os (d)efeitos especiais são recorrentes
e muitas vezes necessários apenas para camuflar péssimos roteiros,
Hitch tinha a seu favor uma ferramenta que faria toda a diferença
entre a excelência de seus filmes e as mediocridades que nos assolam:
uma criatividade absurda. Talvez a mesma criatividade que teve seu
pai ao impor-lhe o castigo acima que tanto o marcou.
A obra de Hitch foi/é tão importante que com ele surgiu uma
nova espécie de filme, os chamados "filmes de autor" Ou seja: Se
hoje se fala num filme de Spielberg, de Copolla ou de Oliver Stone
isso pode dever-se a este cineasta que orgulhosamente fazia sobressair
"um filme de Alfred Hitchcock" na ficha técnica e criou o chamado
"filme de autor". Até aí os realizadores "apagavam-se" perante o
brilho das "estrelas" e assim passava um filme com Valentino ou
com Mae West e ninguém sabia (nem queria saber) o nome do autor.
Também, por estranhas razões, a maioria dos realizadores não gostava
de exibir o seu nome ou a sua presença ao longo da metragem.
Hitch se colocava no mesmo nível de seus expectadores ou seja
simplificava a linguagem dando ênfase no suspense, no clima, na
música de fundo, sem vir com explicações elaboradas ou mesmo com
cenas de difícil entendimento. Não era o terror explícito, mas o
medo psicológico que envolvia toda a trama culminando num ponto
alto ou mesmo em fragmentos que faziam um crime aparentemente perfeito.
Para quem tirou de um melão golpeado a faca, o som perfeito para
a cena do chuveiro de Psicose, o que há mais para dizer que não
seja: BRAVO. HITCH!
Hitchcock faleceu em Hollywood no dia 29 de Abril de 1980.