
Falando
em voltar para casa, sem saber da gravidade de sua doença,
Clarice Lispector morreu ontem no Hospital do INPS, no Rio, e será
sepultada amanhã no Cemitério Israelita. A família
e os amigos pediram a todos que respeitassem um desejo antigo da
escritora:
não fotografassem seu corpo morto.
10
de dezembro de 1977

era
uma pessoa dotada de um espírito de observação
privilegiado. Além disso, ela nada sabia sobre sua enfermidade
e demonstrava, em todas as conversas, seu otimismo e sua vontade
de voltar logo para casa.
A morte encerrou uma convivência de vários anos, pois
Ciléia se tornara a dama de companhia da escritora há
vários anos, quando ela teve que ser internada com várias
queimaduras pelo corpo, sofridas durante um incêndio que destruiu
a casa onde morava. No hospital, poucos amigos, as irmãs
Elisa (também escritora) e Tânia, o filho Paulo, alguns
parentes. E os escritores Nélida Piñon e Autran Dourado,
que seguiram para o hospital após a notícia da morte.
Nélida explicava ao repórteres sobre a proibição
das fotografias; Dourado permaneceu vários minutos em silêncio
junto ao corpo de Clarice coberto por um lençol, na capela.
Outra amiga, a bailarina Gilda Murra, lembrava a alegria que sentiu
ao ler uma crônica de Clarice sobre sua dança.
Os parentes, que esperaram durante horas a remoção
do corpo para o Cemitério Israelita na improvisada e suja
capela do hospital, não quiseram fazer declarações
à imprensa. Elisa e Tânia, as irmãs, não
choraram, mas as expressões de sofrimento e cansaço
mostravam que elas já haviam feito isso antes. Pouco antes
da chegada da ambulância da Santa Casa que levaria o corpo
de Clarice ao cemitério, Vilma, a esposa do ministro Nascimento
e Silva, da Previdência Social, compareceu à capela.
Com um vestido escuro, fumando muito, ela falava da honra de ter
recebido uma das últimas dedicatórias de Clarice,
em seu recente livro "A Hora da Estrela".
__ O livro me foi entregue por Nélida Piñon, explicava
Vilma, e a dedicatória foi feita com letra tremida. Fiquei
sabendo que ela o autografou no próprio leito onde estava.
Nós éramos grandes amigas dela e sentimos muito sua
morte. Também será uma grande perda para a literatura
brasileira.
A escritora, que submetera-se à operação na
Clínica São Sebastião, acabou sendo removida
para o Hospital do INPS graças ao interesse do ministro Nascimento
e Silva. A ambulância esperada chegou às 15h, trazendo
uma urna simples de madeira, onde foi colocado o corpo. Antes da
saída, novamente o mesmo pedido de que fosse respeitado o
desejo de Clarice e ninguém fizesse fotos. Ninguém
fez.
A viagem para o Cemitério Israelita durou 20 minutos. Apenas
a ambulância entrou, ficando parents e amigos do lado de fora.
Os grandes e pesados portões de ferro foram imediatamente
fehcados, enqunto informava-se que o corpo estava sendo colocado
em câmara mortuária onde permanecerá até
amanhã, quando começarem as cerimônias judaicas.
"Clarice não era devotada à religião,
mas sua família resolveu dar-lhe um enterro conforme os rituais
judáicos. Ela era um ser humano excepcional, uma pessoa profundamente
delicada e discreta, que jamais dissociou sua obra da vida. Ela
como ninguém conseguiu dominar a língua brasileira
e, embora ucraniana de nascimento, acabou sendo mais brasileira
do que muitos que aqui nasceram", disse Nélida, no lado
de fora do cemitério. Disse também que Clarice não
gostava muito de falar sobre sua obra nem dos projetos literários
para o futuro, "embora fosse uma escritora com bastante vitalidade
e vontade de trabalhar em seus livros".
Clarice Lispector era desquitada do diplomata Maury Gurgel Valente,
atual embaixador brasileiro na ALALO, no Uruguai. O casal teve dois
filhos: Paulo, que reside no Rio e assistiu à morte da mãe,
e Pedro, o mais velho, que vive com o pai.
Acreditava
que livro nascesse como árvore. Descobriu que não,
e quis ser autora.
"Quando eu aprendi a ler,
comecei a devorar milhares de livros. Achava que livro nascia assim
como nasce uma árvore. Quando descobri que existia alguém
que o escrevia, um autor, eu disse que também queria ser
um". E em seguida a menina Clarice Lispector passou a escrever
contos que enviava regularmente para um jornal de Recife. Nunca
foram publicados, mas só muito mais tarde ela descobriu porque:
"Eles descreviam sensações, ao contrário
dos contos publicados, que narravam fatos".
Este foi o começo de sua carreira literária. Mas Clarice
já se preparava para ela antes mesmo de saber ler, fabulando
com uma amiga uma história que nunca terminava. Enquanto
a escritora garantia que seus personagens estavam mortos, a amiga
completava: "Eles não estavam tão mortos assim".
E a história continuava. Isto foi contado pela própria
autora num depoimento gravado em 1976, para o Museu da Imagem e
do Som. Clarice contou fatos sobre toda sua vida, lembrou-se até
de histórias anteriores a seu nascimento.
Ela tornou-se brasileira quase que por acaso. Ao saírem da
Ucrânia, seus pais camponeses pensavam em transferir-se para
a Alemanha em busca de uma vida melhor. Sua mãe grávida
foi obrigada a descer do trem em Tcheschelnik, para que pudesse
nascer. Com dois meses de idade já estava em Recife, onde
aprendeu a falar, ler, escrever e gostar muito de caranguejo, coisa
que jamais teria conhecido nos trigais de sua terra natal. Recordava-se
de que foi uma criança muito alegre durante o curso escolar.
Com a passagem para a adolescência mudou um pouco. Foi matriculada
num ginásio pernambucano, mas mal teve tempo para conhecer
as colegas. Sua família transferiu-se para o Rio.
Entre os 13 e 15 anos, Clarice freqüentou assiduamente a biblioteca
de aluguel da rua Rodrigo Silva. E lia todos os livros de títulos
bonitos. Assim, acabou conhecendo "O Lobo da Estepe",
de Herman Hesse, "que me marcou profundamente. Depois desse
livro adquiri consciência daquilo que desejava ser, como queria
ser e o que desejava fazer". Terminando o ginásio, cursou
Ciências Jurídicas. Mas só terminou o curso
para desafiar uma amiga que a acusava de nunca acabar o que começava.
Nessa época leu Dostoievsky, Machado de Assis, Graciliano
Ramos, Jorge Amado e Katherine Mansfield, com quem se identificou
muito -- o que seria notado mais tarde por críticos literários
do Brasil e de fora. Ao mesmo tempo, vivia sua segunda -- a primeira
verdadeiramente importante -- experiência literária.
Aos 9 anos, ainda em Recife, e entusiasmada por um espetáculo
de teatro, ela escreveu uma peça "em três atos
e três folhas de papel. Nenhum autor foi mais suscinto do
que eu", lembrava rindo. Mas agora, no início da década
de 40, era diferente. Clarice começara a trabalhar no jornal
A Noite, estava no terceiro ano da faculdade, escrevia uma tese
para o curso sobre o direito de punir. Preocupava-se com as idéias
que surgiam de manhã em sua cabeça mas que à
noite já estavam esquecidas. Começou a anotá-las.
Daí, surgiu Perto do Coração Selvagem, seu
passaporte de entrada no mundo literário brasileiro, em 1944.
O lançamento foi discreto, mas o livro interessou ao crítico
Sérgio Milliet, que lhe dedicou um rodapé em sua coluna.
Imediatamente outros fizeram o mesmo, "foi a realização".
Logo depois Clarice casava-se com o namorado Maury e terminava seu
curso de Direito. Maury Gurgel Valente tornou-se diplomata e Clarice
acompanhou o marido, vivendo na Itália, Suíça
(onde nasceu Pedro, o primeiro filho), Inglaterra, Estados Unidos,
tendo residido seis anos em Washington, a cidade onde nasceu Paulo,
o filho que vive no Rio. Por eles, juntou à sua obra duas
narrativas infantis: O Mistério do Coelho Pensante, em 57,
e A Mulher que Matou os Peixes, 11 anos depois. As duas histórias
foram tiradas de fatos corriqueiros e domésticos e, na segunda,
a personagem do título era a própria escritora que
certa vez, ocupada com outros problemas, deixara os os peixes de
seu aquário morrerem de fome.
Seu livro de estréia provocou comparações com
Virginia Woolf e James Joyce, autores que Clarice só leria
depois. Ela tavez ficasse menos decepcionada se alguém tivesse
se lembrado de D.H. Lawrence, "minha grande admiração
literária. Me inflamo com ele. Tem todos os defeitos da espécie
humana, mas é fogo puro". Publicou depois, O Lustre,
Alguns Contos, A Maçã no Escuro (seu livro mais traduzido
internacionalmente), A Paixão Segundo G.H., Aprendizado ou
o Livro dos Prazeres, Felicidade Clandestina, Laços de Família
e outros, inclusive crônicas, ensaios e reportagens.
Bonita, seus estranhos olhos oblíquos provocaram a admiração
também de pintores famosos. Em seu apartamento carioca, no
Leme, esta admiração estava assinada em retratos pintados
por Giorgio De Chirico (durante o tempo em que viveu em Roma), Ismailovitch
e Ceschiatti, entre vários outros. Há alguns anos
quase morreu queimada num incêndio em sua casa, ficando com
a mão direita parcialmente destruída e sofrendo dolorosas
queimaduras. "Só posso dizer que passei três noites
no inferno, aquele que -- dizem -- espera os maus depois da morte.
Eu não me considero má e o conheci ainda viva".
Apaixonada por crianças, gatos, cães, galinhas e insetos,
sofria de insônia ("se eu dormisse mais fumaria menos")
e torcia pelo Botafogo ("por causa do Garrincha"). A escritora
guardou até a morte um certo sotaque pernambucano. "Pernambuco
marca tanto a gente que basta que nada, mas nada mesmo das viagens
que fiz por este mundo contribuiu para o que escrevo. Mas Recife
continua firme".
"Faço poesia não porque
seja poeta mas para exercitar a minha alma."
Frase de Ulisses, uma das personagens
de Clarice.
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