Profunda,
suave, personalíssima, Cecília Meireles é uma
paixão que me chegou tardia. Na verdade, chegou aos poucos,
todos os dias muito cedo, quando abria a Biblioteca. Nessa hora,
no silêncio do dia amanhecendo era com Cecília que
ficava. Um livrinho pequeno, capa dura, continha boa parte de sua
obra poética e com ele passei a conhecer um pouco de Cecília,
sua poesia mutante de muitos temas, a fugacidade do tempo, a precariedade
dos seres, a melancolia diante da impossibilidade de reter. Cecília
é tudo isso e por isso tão completa, tão capaz
de agradar a todos em algum momento da sua poesia.
Canção
Nunca eu tivera querido
Dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na boca
e depois no teu ouvido.
Levou somente a palavra,
deixou ficar o sentido.
O sentido está guardado
no rosto com que me miro,
neste perdido suspiro
que te segue alucinado,
no meu sorriso suspenso
como um beijo malogrado.
Nunca ninguém viu ninguém
que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
e eu sei que ela se vê bem...
Só se aquele mesmo vento
fechou teus olhos, também...
Cecília
Meireles
Agora volte ao poema e leia em voz alta, devagar.
Ouça a musicalidade das imagens tão presente em Cecília.
Metáforas carregadas de sensações difusas em
que tudo parece desvanecer, embaladas num ritmo suave e melodioso.
Fala do que existe e daquilo que ainda não vimos, mostrando
sons, cores, gostos e sensações ocultos e ao mesmo
tempo conhecidos, produzindo um sentimento transcendência
e transitoriedade únicos.
De longe te hei de amar
De longe te hei de amar,
- da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.
Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
é parecer ausência.
Quem precisa explicar
o momento e a fragância
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogância ?
E, no fundo do mar,
a estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,
alheia à transparência.
Cecília
Meireles
A
escritora, nascida no Rio de Janeiro em 7 de novembro de 1901, foi
criada pela avó materna após ficar órfã
de pai e mãe. Formou-se professora primária aos 16
anos e aos 18 publicou seu primeiro livro de poemas, "Espectros".
Foi menina solitária e quando reclamavam de seu isolamento
dizia que sentia não poder desfrutar da companhia de muitas
pessoas, realmente preciosas, numa alusão a perda de seus
pais. Desde muito Cecília teria intimidade com a morte e
saberia como ninguém as relações entre o efêmero
e a etermidade. A infância daria a ela duas coisas que parecem
ruins: o silêncio e a solidão. E foi justamente nessa
área, segundo ela, que os livros se abriram e deixaram sair
suas realidades e sonhos.
Surdina
Quem toca piano sob a chuva,
na tarde turva e despovoada?
De que antiga, límpida música
Recebo a lembrança apagada?
Minha vida, numa poltrona
jaz, diante da janela aberta.
Vejo árvores, nuvens, - e a longa
rota do tempo, descoberta.
Entre os meus olhos descansados
e os meus descansados ouvidos,
alguém colhe com dedos calmos
ramos de som, descoloridos.
A chuva interfere na música.
Tocam tão longe! O turvo dia
mistura piano, árvore, nuvens,
séculos de melancolia...
Cecília
Meireles
Na solidão silenciosa, a menina Cecília encontrava
suas respostas na palavra escrita. Muito antes de saber escrever,
compunha versos, ainda que não fizesse poesia. Naquele momento,
seus versos eram sementes que a eternidade se encarregaria de cultivar.
Por mais que procure antes de tudo ser feito,
eu era amor. Só isso encontro.
Caminho, navego, vôo,
- sempre amor.
Rio desviado, seta exilada, onda soprada ao contrário
- mas sempre o mesmo resultado: direção e êxtase.
Cecília
Meireles