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"Não
há amor de viver sem desespero de viver".
No dia 4 de julho de 1960, o homem que ganhou o Prêmio Nobel de 57 e que gastou metade do cheque na compra de um palacete no campo, recebeu a visita de seus inseparáveis amigos Anne, Janine e Michel Gallimard. Eles o fizeram desistir de uma passagem de trem para voltarem juntos de carro a Paris. O carro, um Facel-Véga dirigido por Michel Gallimard, seu editor, na altura da Rodovia 5, se arrebentou contra um plátano, entre as pequenas localidades de Champigny-sur-Yonne e Villeneuve-la-Guyard, na França. O relógio do painel do carro foi encontrado bloqueado às 13h55m, provavelmente a hora exata de sua morte. Anne e Janine saíram ilesas e Michel morreu cinco dias depois. Encerrava-se
assim uma vida urgente. Camus tinha urgência em viver, pressa
e desespero, como se soubesse que a sua vida seria curta, tão
curta como ele mesmo dizia ser a vida. Camus
cresceu assim, num pequeno apartamento, vivendo com a sua mãe,
a avó, um tio doente e um irmão. Garoto de rua, vivia
misturado com as outras crianças da sua vizinhança
(judeus, napolitanos, gregos, entre outros). A pobreza não
o faz mais infeliz, tinha dentro de si a alegria de uma vida ao
ar livre. "Fui colocado a meio-caminho entre a miséria e o sol", escreveu Camus em O avesso e o direito.. Camus soube como ninguém usufruir desse paradoxo entre miséria e sol e mesmo com os revezes causados pela doença, o sentimento trágico do absurdo, extraiu o máximo da vida, do desespero que tinha em absorve-lhe horas, minutos e segundos. Ele dizia que " que o único papel verdadeiro do homem, nascido em um mundo absurdo, era o de viver, de ter consciência de sua vida, de sua revolta, de sua liberdade." Camus era humanista, um auto-crítico e crítico do entusiasmo excessivo de seus colegas pela esquerda, um homem de frágil, multifacetado, polifônico e admiravelmente sedutor. Com uma história de vida fascinante, que se desenrola em meio a décadas de um século atravessado por guerras, soube extrair uma lição disso tudo, a de o absurdo da vida não pode ser um fim, mas apenas um começo e o importante são as conseqüências e as regras de que se tira dela. Marcado pela precariedade da vida, Camus nos adverte para a necessidade de aproveitá-la ao máximo. Quando o Camus morreu, Jean-Paul Sartre disse: " O seu humanismo insistente, limitado e puro, austero e sensual, travava um controle doloroso contra os acontecimentos maciços e disformes deste tempo. O escândalo desta morte é a abolição da ordem dos homens pelo inumano."
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