Hoje acordei tão cedo que o dia ainda não tinha se decidido se nascia sol ou chuva. Da última vez que olhei pela janela, vi a opção solar. Menos mal, mesmo que eu não o veja é bom saber que ele esta lá. É o plano B, sempre. Qdo esse nublado sufoca, ainda vejo a claridade que teima em entrar pelas frestas da janela fechada. As janelas não abrem mais. Colocaram grades e elas ficaram fechadas pra sempre.
Outro dia sonhei com meu pai, ele abria as janelas e dizia: tire as grades, deixe a luz entrar. Sei bem o que ele quis dizer, embora não faça diferença, não nesse momento. Tirar as grades, abrir as janelas e ver a vida me olhando como um zoológico. Nesse momento prefiro a penumbra, a luz fria e o silêncio que cerca tudo sempre. A minha quietude de utensílio...os remédios estão fazendo efeito, vou voltar pra cama, ainda é muito cedo para acordar...



©michael vahle

Conseqüentemente há toda sorte de ausências e mesmo os utensílios cotidianos não preenchem esse espaço. Não há, porém nada que o faça se essa ausência não se encontra em nada e ninguém. Está no reflexo que no espelho não aparece, está em todos os dias sem horas em qualquer estação. É a abstração última de que se é capaz, um estado abaixo onde tudo é estático como o sorriso na fotografia eternizando o que já não existe.

Era assim que eu o sabia, sem ver, ouvir ou sentir, havia um lugar onde o indizível estava escrito e era o suficiente.
Naquele dia oscilei entre tocar o avesso de mim mesma ou deixa-lo ir. Onde mais poderia encontrá-lo?
No escrito, a despedida é a mesma e a cada leitura excede a perda e o tempo não passa. Nunca clareia essa minha escuraessência. Jamais voltarei ali
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A convivência é tão difícil, o compartilhar é carregado de digitais que não são as nossas. Sartre chegou a dizer que “o inferno é o outro". Nietzsche do qual já tive a pretensão de falar, sofria a solidão com intensidade, pela doença, pelo gênio, por um mundo no qual não se encaixava disse certa vez: "se pudesse dar-lhe uma idéia de meu sentimento de solidão! Nem entre os vivos nem entre os mortos, não tenho alguém de quem me sinta próximo". Sempre a impossibilidade que permeia a vida, à margem do caminho, a espreita. A convivência solitária é ainda pior porque dilata o sentimento angustiante de não estar dentro de um contexto, como se a história contada não fosse a nossa ou a minha.
A existência parece um estado de embriaguez contínua, onde não dissocio a solidão e da sociedade, por outro lado, há sempre um ponto de interseção, um tempo limite onde tudo passa a ser de uma realidade cruel.
“Solidão não é estar sozinho, é estar vazio” Senêca