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Como
se o tempo pudesse de alguma forma falar, seria assim uma tentativa
de voltar, de saber o que tinha e o que jamais teria. Se o tempo não
fosse como os grãos de uma velha ampulheta descendo rápido,
seria mais fácil continuar.
O afastamento depurou o que sinto e revestiu de sentido novo cada
emoção como se fosse a primeira vez e o encontro eternizou-se
no espaço tempo. Foi assim que em algum momento não
nos encontramos, mas sim nos reconhecemos como se já soubéssemos
da existência mútua e foi assim também que um
dia cinza chegou, a noite veio e agora de forma clandestina retorno
sempre àquele lugar que a ampulheta não alcança:
o sótão onde a memória reside.
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tão
cúmplice, sem máscaras,
a revelia todo tempo do mundo reside no relógio;
nas
madrugadas onde você anda e sonha
onde sonho e ando cansada de não saber o que você faz às
6:00 da manhã?
ou numa tarde assim onde o azul escorre pingando cor no cinza da vida,
qual rosto tem o rosto de ninguém?
onde
você vai quando fecha os olhos e os meus adquirem ambigüidade de
poço profundo lâmina luminosa sem alcance do sol?
e percebo que ainda não te conheço, mas espero paciente confundindo
o eterno
restrito sob a minha pele, onde inscrito trago a certeza da sua existência.
Existirá você?

......Lá
fora é a chuva fina na janela embaçada, aqui dentro a tentativa
de sol todos os dias sempre e pontualmente falha. A chuva continua a cair
a despeito das tentativas. Uma ausência avoluma-se a ponto de preencher
o ambiente. Sempre foi assim, passas do estado fluídico para ausência
presente. Quando olho para trás o passado não se transforma
em estátua de sal, há nele os mesmos sons e cheiros e inocência
de que a vida é para sempre e o amor eternizado naquele azul. Nesse
momento não há lugar nenhum no mundo para ir, ainda que por
vontade própria ou imprópria intervenção do destino.
Não faço compromisso com a eternidade.
...é
sobre essa solidão singular que a vida se estende em sombras, sobras
sempre espalhadas pelo caminho
é dessa impossibilidade recorrente de ter a frente um futuro branco,
um tempo limite e dormente
é na incongruência latente da vida que procuro a redenção
num ponto de tangência e o porvir em algum lugar que não estou,
passará com urgência antes mesmo que a noite vire dia.
...Há
uma incompatibilidade com esse mundo que a angústia acentua. Essa maldita
luva de pelica percorre o pescoço com suave pressão. Sufoca
e extrai prazer do que não sei, apenas sinto e é nesse universo
paralelo onde a realidade extrapola o sonho, que me encontro. Em algum lugar
além, alguém esta, mas o caminho não é de fácil
acesso, o destino desconhecido, a loucura mansa, mata pouco a pouco cada minuto
do meu dia e prolonga por longas horas, as mesmas horas que a noite tem.
É assim...
...No
limiar, ali no fim do caminho, num tempo qualquer em qualquer estação,
sempre ali onde a memória habita, onde os sonhos sob lençóis
brancos dormem, há um silêncio de passos cuidadosos e macios
e é assim que a raiz na entranha estranha a terra como se dela não
fizesse parte. Afora isso, entre a noite e a noite, estão as sombras.
...Sorrisos
são máscaras, como também a dor, desnuda -se a essência
e a falta de expressão causa estranheza. Essa isenção
de momentos impressos na face, a tela branca e a tinta que falta, a cor e
o som, um reflexo ausente, não marcam a vida, por outro lado são
a própria vida e a ambigüidade que a cerca. Quem conhece há
de saber do remorso de levar silêncio ao mundo. É impróprio
ser assim e convém guardar luto discreto, sem murmúrios ou ranger
de dentes.
Tenho
um tempo atemporal (há temporais?) que corre à revelia.
Desprovido de rotas, suas longas horas pesam sempre e mais. Todo o peso do
mundo o tempo todo... Entre a noite e a noite, o dia é sempre o mesmo.
Não chove, mas o barulho das gotas no asfalto retine intermitente.
Nem tente entender, quando há sol, o sal é o mesmo que alcança
a boca.